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Por que razão Putin invadiu a Ucrânia? Uma história sobre o fim da União Soviética que o líder russo nunca aceitou



Ucrânia, a Rússia invadiu o país num ataque em várias frentes

O turbilhão de esforços diplomáticos nas últimas semanas não foi suficiente para fazer a Rússia mudar de ideias. Ainda há uma semana, no domingo, o Presidente russo, Vladimir Putin, garantia ao seu homólogo francês, Emmanuel Macron, que iria retirar as tropas da Bielorrússia quando terminassem os exercícios militares previstos. Uma intenção que rapidamente se percebeu não ser real.

Um dia depois, na segunda-feira à noite, Putin foi claro nas suas intenções e na forma como olha para o país que fazia parte da antiga União Soviética.  "A Ucrânia moderna foi criada pela Rússia comunista", argumentou o presidente russo, acrescentando que os ucranianos foram "contaminadas pelo Ocidente com o vírus da corrupção".

O presidente russo nunca aceitou o desmantelamento da União Soviética em 1992 e considera uma ameaça a extensão da NATO para esses países. Em 2005, no discurso do estado da Nação, Putin considerou o colapso do império soviético "a maior catástrofe geopolítica do século".



Qual é a situação atual?

O ataque da madrugada desta quinta-feira distribui-se por várias zonas da Ucrânia. Antes de avançar, Vladimir Putin anunciou o início de uma "operação militar especial" e alertou para a possibilidade de ser derramado sangue a não ser que as forças ucranianas largassem as armas.

Mapa dos ataques russos na Ucrânia esta quinta-feira de madrugada

 

Os ataques tiveram como alvo algumas das principais cidades ucranianas junto da fronteira, como se pode ver comparando as zonas de ataque com as zonas mais povoadas da Ucrânia.

A invasão da Ucrânia aconteceu depois de meses de especulação sobre quais seriam as intenções de Moscovo com o acumular de tropas nas fronteiras com a Ucrânia. Mais de 150 mil tropas rodearam o país em três frentes, de acordo com estimativas dos serviços secretos norte-americanos e ucranianos.

Algumas destas tropas começaram a atravessar o país a partir do norte, na Bielorrússia, e do sul, através da Crimeia. Também houve registo de explosões em várias outras cidades, incluindo a capital, Kiev. Ainda durante esta quinta-feira, os russos anunciaram o controlo do aeroporto de Hostomel, um entreposto de carga perto de Kiev.

Este ataque coordenado acontece apenas três dias depois de Vladimir Putin ter anunciado que Moscovo iria reconhecer oficialmente como estados independentes as repúblicas separatistas de Donetsk e de Lugansk, no leste da Ucrânia. Os territórios reconhecidos por Putin foram além das áreas controladas pelos separatistas pró-Rússia.

Mapa: Zonas reconhecidas por Moscovo como independentes

Putin negou várias vezes estar a planear um assalto, mas uma escalada da violência no leste da Ucrânia fez aumentar os receios de que estaria a criar uma desculpa para justificar um conflito mais alargado.

À medida que a situação na fronteira ia escalando, a NATO reforçou a sua brigada de resposta rápida e os seus membros foram mobilizando as suas tropas, enviando batalhões, aviões e navios para a região. A aliança transatlântica não está a contar, no entanto, intervir em território ucraniano, garantiu esta quinta-feira o primeiro-ministro português, António Costa.

O chefe de governo explicou que os militares portugueses poderiam ser convocados para "missões de dissuasão sob ordens da NATO". O Conselho Superior de Defesa Nacional aprovou entretanto a participação de 1.521 militares portugueses em duas forças de prontidão da aliança transatlântica.

Apesar de ter vindo a receber financiamento, treino e equipamento por parte da NATO, as forças militares da Ucrânia empalidecem quando comparadas com o poderio militar russo, que tem vindo a ser modernizado sob a liderança de Vladimir Putin. Se o conflito escalar para uma guerra aberta entre os dois países, dezenas de milhares de civis podem perder a vida e mais de cinco milhões de pessoas podem ter de fugir das suas casas.

Que fatores abriram o caminho para o conflito?

A Ucrânia foi uma pedra basilar da União Soviética até 1991, altura em que votou esmagadoramente pela independência, um acontecimento que acabou por ser a sentença de morte de uma superpotência enfraquecida.

Após o colapso da União Soviética, a NATO avançou para Leste, abarcando a maioria das nações da Europa de Leste que tinham estado na órbita comunista. Em 2004 juntaram-se à NATO as ex-repúblicas soviéticas do Báltico Estónia, Letónia e Lituânia. Quatro anos mais tarde, a organização declarou a sua intenção de propor a adesão à Ucrânia algures num futuro distante – cruzando uma linha vermelha para a Rússia.

Putin já afirmou que vê a expansão da NATO como uma ameaça existencial e a perspetiva da Ucrânia se juntar à aliança militar ocidental como um “ato hostil”. Em entrevistas e discursos, reforçou a sua visão de que a Ucrânia faz cultural, linguística e politicamente parte da Rússia. Ainda que uma fração da população de língua russa no leste da Ucrânia seja da mesma opinião, a população mais nacionalista de língua ucraniana na parte ocidental do país tem apoiado historicamente uma maior integração com a Europa.

No início de 2014, os protestos em massa na capital Kiev, que ficaram conhecidos como Euromaidan, forçaram a saída de um presidente favorável à Rússia, depois de este ter recusado assinar um acordo de associação com a UE.



A Rússia respondeu com a anexação da península ucraniana da Crimeia e a incitação a uma rebelião separatista no leste da Ucrânia, que veio a assumir o controlo de parte da região de Donbas. Apesar de um acordo de cessar-fogo em 2015, os dois lados ainda não alcançaram uma paz duradoura, e a linha da frente mantém-se praticamente inamovível desde então. Já morreram quase 14.000 pessoas no conflito e existem 1,5 milhões de deslocados internos na Ucrânia, segundo o governo ucraniano.

O que pretende Putin?

Num longo ensaio escrito em Julho de 2021, o presidente russo referiu-se a ucranianos e russos como fazendo parte de "um só povo" e insinuou que o Ocidente tinha corrompido a Ucrânia, afastando-a da órbita da Rússia através de uma "mudança de identidade forçada".

Este tipo de revisionismo histórico esteve visível no discurso de Vladimir Putin de segunda-feira, cheio de emoção e rancor, em que anunciou a sua decisão de reconhecer a independência das regiões de Donetsk e de Lugansk, ao mesmo tempo que levantava dúvidas sobre a soberania ucraniana.

Mas os ucranianos, que nas últimas três décadas procuraram aproximar-se de instituições como a União Europeia e a NATO, refutam esta ideia de que não passam de "marionetas" do Ocidente. Na verdade, as tentativas de Putin de atrair a Ucrânia de volta para a sua esfera de influência têm tido como resposta algumas sondagens que mostram que a maioria dos ucranianos é a favor da integração do seu país na NATO.

Em dezembro, Putin apresentou à NATO uma lista de exigências em termos de segurança. A principal era a garantia de que a Ucrânia nunca se iria juntar à aliança e que a NATO reduzisse a sua presença militar no leste e no centro da Europa - exigências que os Estados Unidos e os seus aliados afirmaram repetidamente que não estão em cima da mesa.

As negociações de alto nível entre o Ocidente e a Rússia terminaram em janeiro sem nenhum avanço. O impasse deixou os líderes europeus envolvidos num frenesim diplomático, explorando a possibilidade de um canal de negociação estabelecido entre França, Alemanha, Rússia e Ucrânia para resolver o conflito no leste da Ucrânia - conhecido como as negociações do Formato da Normandia.

Numa conferência de imprensa com o novo chanceler alemão, Olaf Scholz, a 16 de fevereiro, Putin repetiu as alegações infundadas de que a Ucrânia está a levar a cabo um “genocídio” contra os falantes de russo na região de Donbas e apelou para que o conflito seja resolvido através dos acordos de paz de Minsk - repetindo uma retórica semelhante à que foi usada como pretexto para anexar a Crimeia.

Mas menos de uma semana depois, a 22 de fevereiro, a câmara alta do parlamento russo aprovou o envio de forças militares para fora do país. Na altura, Putin afirmou aos jornalistas que os acordos de Minsk "já não existem" e acrescentou: "O que há para implementar agora que nós reconhecemos estas duas entidades?".

Os acordos conhecidos como Minsk 1 e Minsk 2 - que foram assinados na capital bielorussa numa tentativa de acabar com o derrame de sangue no leste da Ucrânia - nunca foram completamente implementados, com alguns pontos-chave a permanecerem sem solução.

Moscovo e Kiev há muito que discordam sobre algumas das questões fundamentais dos acordos de paz, o segundo dos quais foi assinado em 2015 e estabelece um plano para a reintegração das duas regiões separatistas na Ucrânia. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse recentemente que não lhe agradava nenhum ponto dos acordos de Minsk, que exigem um diálogo sobre eleições locais nas zonas apoiadas pela Rússia e que também devolveriam à Ucrânia o controlo das fronteiras no leste do país. Alguns críticos apontam que estes acordos dão um poder excessivo a Moscovo sobre questões internas ucranianas.



Putin chegou a afirmar que mesmo que Zelensky fosse ou não favorável aos acordos, eles deveriam ser implementados. "Gostando ou não, é o teu dever, meu querido", disse Putin numa conferência de imprensa ao lodo do presidente francês, Emmanuel Macron. Zelensky, um ex-comediante e estrela de TV, obteve uma vitória esmagadora nas eleições de 2019 com a promessa de acabar com a guerra em Donbas, mas pouca coisa mudou. Em resposta a uma pergunta acerca da linguagem severa e pouco diplomática de Putin, Zelensky respondeu em russo, afirmando secamente: “Nós não lhe pertencemos”.

Qual é a perspetiva da Ucrânia?

O presidente Zelensky tem subestimado repetidas vezes o perigo de uma invasão russa, observando que a ameaça existe há anos e que a Ucrânia está preparada para uma agressão militar. Mas esta terça-feira, ao mesmo tempo que a Rússia avançava com o ataque, Zelensky falou ao país numa declaração emocionada em que instaurou a lei marcial.

"A Rússia iniciou hoje um ataque contra a Ucrânia. Putin começou a guerra contra a Ucrânia e contra o mundo democrático. Ele quer destruir o meu país, o nosso país, tudo o que construímos, tudo aquilo por que temos vivido", disse Zelensky num vídeo publicado na sua página oficial no Facebook.

Esta quinta-feira em Kiev, onde os ucranianos mantinham o seu dia a dia enquanto as tropas russas se acumulavam na fronteira, as ruas estavam vazias. Por todo o país, os habitantes têm-se preparado para o pior - acumulando kits de evacuação de emergência e participando em treinos militares ao fim de semana.

O governo da Ucrânia tem vindo a insistir que Moscovo não pode impedir Kiev de construir laços mais estreitos com a NATO, nem interferir na sua política interna ou externa. “A Rússia não pode impedir a Ucrânia de se aproximar da NATO e não tem o direito de opinar em temas relevantes”, disse o Ministério dos Negócios Estrangeiros em comunicado à CNN.



As tensões entre os dois países têm sido exacerbadas pelo agravamento da crise energética ucraniana, que Kiev acredita ter sido provocada intencionalmente por Moscovo. A Ucrânia vê o controverso gasoduto Nord Stream 2 - uma ligação direta do gás russo à Alemanha - como uma ameaça à sua própria segurança.

O Nord Stream 2 é um dos dois gasodutos subaquáticos que a Rússia instalou no Mar Báltico, como complemento à sua tradicional rede de gasodutos terrestres que atravessa a Europa de Leste, incluindo a Ucrânia. Kiev considera a presença dos gasodutos na Ucrânia um elemento de proteção contra uma invasão da Rússia, já que qualquer ação militar poderia interromper o fluxo vital de gás para a Europa.

Quando Putin anunciou o apoio à independência das regiões separatistas ucranianas, o chanceler alemão carregou no gatilho ao anunciar que a certificação do gasoduto Nord Stream 2 vai mesmo ser travada.

Mapa: os gasodutos Bratstvo e Soyuz garantem à Ucrânia uma importante fonte de rendimento

Mas este é apenas um dos inúmeros desafios que o governo de Zelensky tem de enfrentar. O ex-actor, que interpretou o papel de presidente na televisão ucraniana, tem tido um vigoroso batismo de fogo na política da vida real desde que assumiu o cargo em 2019.

A popularidade do seu governo estagnou perante uma multiplicidade de desafios políticos domésticos, incluindo uma recente terceira vaga de infeções por Covid-19 e uma economia em dificuldades.

Muitos ucranianos estão insatisfeitos porque o governo não cumpriu as promessas que o levaram ao poder, incluindo o combate à corrupção no sistema judicial do país. Mas a preocupação mais urgente prende-se com a incapacidade, até à data, de Zelensky em conseguir devolver a paz ao leste do país.

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